Presente #2
"Ontem eu decidi que
faria o meu passado não ser nada além de lembranças. Mudei minhas cores, a
minha agenda, o meu foco. E aí eu abri as minhas mensagens, que guardava pra
mostrar e dizer um dia a alguma daquelas que eu tentei amar: ” Olha, eu guardei
essas mensagens, pra provar pra ti que em todo esse tempo eu realmente estive
pensando em você. Eu as guardei pra poder dizer, que eu as lia todos os dias
pra manter você perto de mim… E como se ausência deste hábito fosse te levar
embora, né.” Fiquei pensando naquele meu plano infalível de deixar alguma delas
com cara de boba, se o acaso algum dia viesse a nos dar uma nova chance. E
cheguei a confortante conclusão de que eu não dava mais a mínima. Me senti
idiota, e me lembrei de como eu queria ser aquele idiota de novo. E me lembrei
também de como nada daquilo fazia mais sentido na minha “nova vida”.
Dividido por
completo entre o que eu queria e o que eu precisava, eu fui apagando todas
elas. Até que encontrei as tuas mensagens de texto. Digo, as nossas. E sabe o
que foi estranho? Eu senti saudade. Eu senti sua falta. Sabe, de quando a gente
tava se conhecendo… De quando eu tinha machucado a minha mão no boxe e você me
mandava mensagens perguntando se ela tinha melhorado, e você, um pouco
exagerada, dizia que ela poderia ser amputada, até consigo rir quando lembro
disso… Ou de quando um dia eu acordei com uma que você dizia “Estou pensando em
você do nada”… De quando você me disse que estava indo para um “Jantar de
Orquidófilos”, e a partir daí, a Ana Clara pra mim virou “A Menina das
Orquídeas”. Como esquecer isso, né?
E mais engraçado
ainda, é que de todas as outras mensagens, as tuas estavam lá por acaso. Eu não
planejei te dizer isso hoje. Entre todas que guardei, as tuas foram as únicas
que não quis apagar. Talvez porque você não tenha tido oportunidade de virar um
passado meu. Ou talvez, em razão do tempo, você não tenha sido algo tão
expressivo a ponto de virar uma dor. O porque disso eu não sei. E o porque de
eu sentir necessidade de andar pra frente me livrando do meu passado ter me
levado a pensar em você sorrindo, eu também não sei. Mas eu acho que eu
gostaria de descobrir.
Te mandei uma nova
mensagem agora há pouco, mas eu só disse “Oi, fui ver as minhas mensagens
antigas pra apagar e tava lendo as nossas, de quando a gente tava se
conhecendo… Que saudade que deu! Boa noite.” Falando assim você provavelmente
não entendeu a profundidade disso. Ou talvez você tenha entendido. Aliás, não
precisa entender. Só precisa sentir. Quem sabe um dia eu te pergunto.
M. B.
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